quinta-feira, dezembro 04, 2003
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segunda-feira, novembro 24, 2003
O GARRANO NAS AMÉRICAS
Nas viagens de descoberta por terras americanas, os mareantes portugueses e espanhóis ficaram varados por não terem visto nenhuma espécie de cavalo. É então que os homens lançam os garranos numa nova aventura: baloiçam nas naus em várias direcções e logo que desembarcam são cortejados por governadores, capitães, médicos, cientistas, escrivães, padres jesuítas, frades sem convento, comerciantes, mercadores ambulantes, boticários, barbeiros, amoladores, matutos, roceiros, caipiras, rufias, gaúchos, ciganos, condutores de carroças, garimpeiros, contrabandistas, capangas, jagunços, gurus sertanejos, homens de sete ofícios,índios charruas ou tehuelches e ex-escravos negros ou mulatos.
Os garranos adaptam-se e reproduzem-se, trilham os vastos planaltos e as altas cordilheiras da região, galgam os montes e descem encostas recortadas de baías profundas, varam o pino do sol ou o sopro dos ventos, cruzam todo o continente de Norte a Sul: Florida (Sudoeste dos Estados Unidos) Santo Domingo (República Dominicana) México, Panamã, Venezuela, Santiago de Uruba, San Lúcar de Barrameda, Nova Granada (Colômbia),Peru, Paraguai, Chile, Rio da Prata, Santa Fé, Buenos Aires, Córdova, Cuyo, Tucumã (Argentina) Pernambuco, Amazonas e Rio Grande do Sul (Brasil).E por lá andam, também eles, na disputa da terras aos índios ou aos pinchos no meio de cidades saqueadas. Alguns, os mais afoitos, não querem ficar mortos, mancos ou zarolhos no meio da bulha: desatravancam-se do cavaleiro e abalam para formar novos rebanhos selvagens. Depois, vão buscá-los à laçada e desdobram-se as cenas de doma. Alexandrino, filho de negra, mulato da selva, vê-se em palpos de aranha ao tentar refrear um potro ao gosto crioulo:«ferido pelas esporas e com aquele peso intruso que o seu lombo nunca suportara, o garrano ora se dobrava, formando bossa de dromedário, ora se distendia em pulos sucessivos e coices sem descanso. Carecia de grande perícia e não menor coragem quem se escanhasse sobre o dorso agitado. Para Alexandrino, porém, aquilo parecia uma diversão: cara alegre, os dentes ferrados no lábio inferior, ia saltando, com a montada, por todo o descampado e via-se que gostava fazendo sofrer o potro, ao esporear-lhe profundamente o ventre até sangrar.»(1) Mas chegam outros momentos e aí o temos ao lado do homem, nos ranchos, no dia a dia da faina campeira, a lavrar a terra,a resgatar uma rês perdida, a puxar carroça, a transportar nos alforges peles de vicunha, nos rodeios, nas tropeadas, nas carreiras de cancha recta, nas cavalhadas, nas feiras, nos desfiles festivos e nas longas viagens.
Não deixou de ser o garrano, o animal dócil e fervoroso trazido ao chão americano pelos conquistadores, mas teve nomes muito diferentes: kaitá para os índios pampas, saguá para os índios do noroeste argentino, mesteño e mustang para os mexicanos e californianos, cimarrone para os guatemaltecos, salvadorenhos, nicaraguenses, costa-riquenhos, panamenses, bagual para os rio-platenses e pingo ou crioulo para os gaúchos sul-rio-grandenses.
Por onde passou, desviado dos caminhos trágicos, da sede e da fome, das chicotadas sem dó ou da morte por cansaço, deixou estórias de assombrar, criou afectos, fez figura no cinema, inspirou provérbios e canções na cultura dos povos. Foi o guerreiro dos índios e o companheiro inseparável do gaúcho.«Havia entre o gaúcho e os cavalos verdadeiras relações sociais. Alguns faziam parte de sua família; outros eram amigos; aos mais tratava-os como camaradas ou simples conhecidos.»(2)E isto não era léria, era assim mesmo. O gaúcho nunca abandonava o cavalo à sua sorte: «não passava ele por um lugar onde visse um cavalo enfermo ou estropiado que se não apeasse, fosse embora com pressa, para o socorrer. Sangrava-o, se era preciso; cauterizava lhe as feridas; e até quando já o animal se não podia erguer, ele o arrastava para a sombra e ia buscar-lhe água no chapéu em falta de outra vasilha.»(3)Estes gestos comprovam a tendência do gaúcho para a ternura, alumiam uma das suas duas grandes paixões porque a outra foi sempre a morena que levou, de rota batida, na garupa do cavalo. E essas vibrações íntimas acompanharam-no até ao fim da vida:«Estou velho, tive bom gosto,/Morro quando Deus quiser;/Duas penas levo comigo:/Cavalo bom e mulher.»(4)
NOTAS
(1) Castro, Ferreira de, A Selva, Guimarães Editores, 34.edição, Lisboa,1982,pg.230
(2) Alencar, José de, O Gaúcho, Edição da «Organização Simões».Rio de Janeiro, 1954, pg. 44
(3) Alencar, José de, O Gaúcho, Edição da «Organização Simões», Rio de Janeiro, 1954, pg. 46
(4) Meyer, Augusto, Guia do Folclore Gaúcho, Presença, Rio de Janeiro, 1975, 2ª edição, pg. 75
Nas viagens de descoberta por terras americanas, os mareantes portugueses e espanhóis ficaram varados por não terem visto nenhuma espécie de cavalo. É então que os homens lançam os garranos numa nova aventura: baloiçam nas naus em várias direcções e logo que desembarcam são cortejados por governadores, capitães, médicos, cientistas, escrivães, padres jesuítas, frades sem convento, comerciantes, mercadores ambulantes, boticários, barbeiros, amoladores, matutos, roceiros, caipiras, rufias, gaúchos, ciganos, condutores de carroças, garimpeiros, contrabandistas, capangas, jagunços, gurus sertanejos, homens de sete ofícios,índios charruas ou tehuelches e ex-escravos negros ou mulatos.
Os garranos adaptam-se e reproduzem-se, trilham os vastos planaltos e as altas cordilheiras da região, galgam os montes e descem encostas recortadas de baías profundas, varam o pino do sol ou o sopro dos ventos, cruzam todo o continente de Norte a Sul: Florida (Sudoeste dos Estados Unidos) Santo Domingo (República Dominicana) México, Panamã, Venezuela, Santiago de Uruba, San Lúcar de Barrameda, Nova Granada (Colômbia),Peru, Paraguai, Chile, Rio da Prata, Santa Fé, Buenos Aires, Córdova, Cuyo, Tucumã (Argentina) Pernambuco, Amazonas e Rio Grande do Sul (Brasil).E por lá andam, também eles, na disputa da terras aos índios ou aos pinchos no meio de cidades saqueadas. Alguns, os mais afoitos, não querem ficar mortos, mancos ou zarolhos no meio da bulha: desatravancam-se do cavaleiro e abalam para formar novos rebanhos selvagens. Depois, vão buscá-los à laçada e desdobram-se as cenas de doma. Alexandrino, filho de negra, mulato da selva, vê-se em palpos de aranha ao tentar refrear um potro ao gosto crioulo:«ferido pelas esporas e com aquele peso intruso que o seu lombo nunca suportara, o garrano ora se dobrava, formando bossa de dromedário, ora se distendia em pulos sucessivos e coices sem descanso. Carecia de grande perícia e não menor coragem quem se escanhasse sobre o dorso agitado. Para Alexandrino, porém, aquilo parecia uma diversão: cara alegre, os dentes ferrados no lábio inferior, ia saltando, com a montada, por todo o descampado e via-se que gostava fazendo sofrer o potro, ao esporear-lhe profundamente o ventre até sangrar.»(1) Mas chegam outros momentos e aí o temos ao lado do homem, nos ranchos, no dia a dia da faina campeira, a lavrar a terra,a resgatar uma rês perdida, a puxar carroça, a transportar nos alforges peles de vicunha, nos rodeios, nas tropeadas, nas carreiras de cancha recta, nas cavalhadas, nas feiras, nos desfiles festivos e nas longas viagens.
Não deixou de ser o garrano, o animal dócil e fervoroso trazido ao chão americano pelos conquistadores, mas teve nomes muito diferentes: kaitá para os índios pampas, saguá para os índios do noroeste argentino, mesteño e mustang para os mexicanos e californianos, cimarrone para os guatemaltecos, salvadorenhos, nicaraguenses, costa-riquenhos, panamenses, bagual para os rio-platenses e pingo ou crioulo para os gaúchos sul-rio-grandenses.
Por onde passou, desviado dos caminhos trágicos, da sede e da fome, das chicotadas sem dó ou da morte por cansaço, deixou estórias de assombrar, criou afectos, fez figura no cinema, inspirou provérbios e canções na cultura dos povos. Foi o guerreiro dos índios e o companheiro inseparável do gaúcho.«Havia entre o gaúcho e os cavalos verdadeiras relações sociais. Alguns faziam parte de sua família; outros eram amigos; aos mais tratava-os como camaradas ou simples conhecidos.»(2)E isto não era léria, era assim mesmo. O gaúcho nunca abandonava o cavalo à sua sorte: «não passava ele por um lugar onde visse um cavalo enfermo ou estropiado que se não apeasse, fosse embora com pressa, para o socorrer. Sangrava-o, se era preciso; cauterizava lhe as feridas; e até quando já o animal se não podia erguer, ele o arrastava para a sombra e ia buscar-lhe água no chapéu em falta de outra vasilha.»(3)Estes gestos comprovam a tendência do gaúcho para a ternura, alumiam uma das suas duas grandes paixões porque a outra foi sempre a morena que levou, de rota batida, na garupa do cavalo. E essas vibrações íntimas acompanharam-no até ao fim da vida:«Estou velho, tive bom gosto,/Morro quando Deus quiser;/Duas penas levo comigo:/Cavalo bom e mulher.»(4)
NOTAS
(1) Castro, Ferreira de, A Selva, Guimarães Editores, 34.edição, Lisboa,1982,pg.230
(2) Alencar, José de, O Gaúcho, Edição da «Organização Simões».Rio de Janeiro, 1954, pg. 44
(3) Alencar, José de, O Gaúcho, Edição da «Organização Simões», Rio de Janeiro, 1954, pg. 46
(4) Meyer, Augusto, Guia do Folclore Gaúcho, Presença, Rio de Janeiro, 1975, 2ª edição, pg. 75